“Ergenekon III” de Fernando Gabriel (Diário Económico)
http://go2.wordpress.com/?id=725X1342&s ... 83703.html
Uma tese de doutoramento não é um ponto de partida habitual para antever as opções geopolíticas de um país; por outro lado, Ahmet Davutoglu, o autor da tese, também não é um político habitual.
Muito antes de ser ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia já era a éminence grise do AKP e o responsável intelectual pela reformulação da política externa da Turquia, depois deste partido ter assumido o poder em 2002.
A tese de Davutoglu, disponível em inglês sob o título Alternative Paradigms (Boston, 1994) é muito mais do que uma doutrina de política externa: é uma rejeição absoluta e abrangente do secularismo como uma visão política incompatível com a filosofia e a teologia islâmica. Essa rejeição está expressa no “teorema” central: as diferenças entre o pensamento político islâmico e ocidental decorrem de visões do mundo incompatíveis, no seu conteúdo ontológico, epistemológico e axiológico; e o secularismo é um elemento da Weltanschauung ocidental. Embora o argumento assente numa visão reducionista do pensamento político ocidental -por exemplo, a epistemologia empirista está longe de ter o domínio absoluto que lhe é atribuído- as deficiências e insuficiências do argumento importam menos do que as duas principais implicações políticas.
A primeira é a impossibilidade da integração europeia da Turquia. O processo de aproximação entre a UE e a Turquia baseia-se no pressuposto implícito de que os obstáculos à integração são essencialmente históricos e institucionais. A tese de Davutoglu é que as diferenças são profundas e intransponíveis sem a Turquia repudiar os elementos essenciais do carácter político islâmico. A segunda refere-se aquilo que Davutoglu designa como as "pressões opressivas das políticas secularistas", uma acusação de desvirtuamento desse carácter político que coloca os kemalistas na condição de inimigo, a desentranhar dos bastiões institucionais da justiça e das forças armadas a todo o custo.
Sem compreender isto não é possível entender o que está em causa na Turquia. As contínuas detenções de altas patentes militares e procuradores de justiça sob pretextos ridículos de preparação de golpes militares permitem ao AKP avançar o seu projecto de transformação da Turquia, que a prazo resultará na eliminação de todos os elementos estranhos ao corpo político islâmico. Cinicamente, isso resolverá o "dilema europeu" da adesão turca, motivo provável pelo qual a tecnocracia da UE aceita alegremente o papel de idiota útil e emite regularmente umas banalidades sobre as ameaças ao "pluralismo" e a "democracia", contribuindo para enfraquecer o único contra-poder interno ao AKP. Este, ao aproximar a Turquia do Irão, coloca o país do outro lado da fronteira invisível que separa o Ocidente do Islão -uma fronteira que divide as associações políticas onde é reconhecida a distinção categórica entre a autoridade do Estado e a da Igreja, das associações políticas que reconhecem como pressuposto ontológico a unidade transcendental de Alá e desejam a sua realização política no califado. É esta a origem do revivalismo do AKP, que pouco mais tem de "otomano" para além de uma nostalgia autoritária e imperialista.
____
Fernando Gabriel, Investigador universitário
O saudosismo do império otomano ainda prevalece. Os europeus que se cuidem......
